A gaveta

Já abriram uma gaveta, alguma vez, e sem querer viram aquela imagem? E roçaram naquele sentimento de ausência? Por exemplo, estamos aqui lá lá lá e vai na volta e coiso precisamos de uma coisa que deve estar, só pode estar, naquela gaveta, daquele armário, lá ao fundo, mesmo lá ao fundo (se forem direitinhos ao sítio onde está a coisa perdida…não me digam). E pimba, aquele objecto oferecido por não sei quem (tão fofo!), aquela foto tirada não sei onde (que linda!), aquela carta (sou do tempo das cartas, escrevi muitas!) e ficamos com o objecto na mão, a olhar para a foto, a ler a carta. E rimos ou choramos, mas acima de tudo lembramo-nos, porque houve um tempo em que teve alguma importância, algum significado e embora agora até já nos passe ao lado (porque é que eu guardei isto?) foi, um dia, importante.

Há pedaços das nossas vidas guardados em gavetas e fomos nós que os mandamos para lá, para os guardar! Outras vezes, os objectos nem querem dizer nada, mas deixamos que lá fiquem a marinar ou a ganhar teias só porque não queremos deitar fora, porque um dia, distante, pode ser preciso. E nunca é. E depois aquela gaveta acaba por ser constituída de coisas inúteis, passa a ser “a gaveta da porcaria” onde cabe sempre mais qualquer coisa, mas que está tão cheia que já nem abre. Mas onde é que está aquilo? De certeza que está naquela gaveta. Está lá sempre tudo.

 

“De facto, só abro a gaveta quando vou à procura de uma imagem especifica que possa ter uma utilidade concreta e actual, evitando cuidadosamente despertar essa serpente venenosa que hiberna no fundo da gaveta a que chamamos nostalgia. Dizem que as fotografias não mentem, mas essa é a maior mentira que já ouvi”
(Miguel Sousa Tavares, “No teu deserto”)

 

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