“O Quarto de Jack”

“O Quarto de Jack”

Jack nunca saiu do quarto. Nasceu lá. Comia lá, brincava lá, tomava banho lá. Jack não conhecia mundo nenhum, só o mundo que era ‘o Quarto’. E a televisão. Via televisão e tudo o que ela lhe mostrava eram coisas intocáveis. As árvores, os carros, e até as próprias pessoas não existiam, só estavam na televisão. A única pessoa que o Jack conhecia era a mamã. E o Nick Mafarrico, mas ele era mau e a mãe nunca o deixava vê-lo. Jack ficava escondido no armário sempre que ele aparecia.

Mas o Jack era feliz. Na realidade dele os brinquedos eram feitos de caixas de cereais vazias ou que cascas de ovos. O banho era partilhado com a mãe e a comida também. O menino era feliz e não sabia o que era um chupa-chupa, até ao dia que o Nick lhe trouxe um como mimo de domingo, porque ele e a mamã se portaram bem.

Na verdade, ‘O Quarto’, que era a casa de Jack, era o sítio onde a mãe foi aprisionada um dia. Depois de ser raptada foi mantida em cativeiro e foi constantemente violada. Sozinha tomou conta de Jack e tentou educá-lo dentro de quatro paredes. E quando Jack fez cinco anos, ela decidiu contar-lhe a verdade. Ele não percebe que a mamã também tem uma mamã, não sabe o que é ter família nem o que existe naquilo a que chama o Espaço Lá Fora.

– Jack, isto é importante. Eu viva numa casa com a minha mãe, o meu pai e o Paul.
Tenho de entrar no jogo para que ela não se zangue.
– Uma casa na televisão?
– Não, lá fora.
Isso é ridículo, a mamã nunca esteve no espaço lá fora.

A história está escrita na voz do pequeno Jack e é ele que vai salvar a mãe do cativeiro em que está há vários anos, depois de concretizar o plano que ela engendrou. Demasiado para uma criança. Demasiado para uma criança que não conhece o Espaço Lá Fora.

Na rua tudo é estranho para Jack. Existem outras pessoas. Muitas pessoas. Animais, aqueles que antes estavam na televisão. Já não é preciso partilhar a mesma toalha de banho com a mamã. O vento parece que o vai desfazer. O sol queima-lhe a pele. Os carros fazem barulho. E tudo é estranho, confuso e completamente novo e anormal na nova vida daquele menino.

À noite, na nossa cama que não é a Cama, esfrego o edredão, é mais inchado do que era o Edredão. Quando tinha quatro anos, não sabia acerca do mundo ou julgava que tudo aquilo não passava de histórias. Depois, a mamã contou-me a verdade e eu julguei que já sabia tudo. Mas agora que estou no mundo o tempo todo, a verdade é que não sei grande coisa, estou sempre baralhado 
-Mãma (…) – Às vezes não desejavas não termos fugido?
– Não, nunca tenho esse desejo.

 

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