Eles foram até lá abaixo…

Eles foram até lá abaixo…

“Vocês acham que atravessar África é assim? Olha para ti… Se te veem com esse brinquinho e essa camisola com bonecos comem-te vivo”.

O João Fontes, o João Henriques e o Tiago Carrasco foram num jipe de Lisboa até África do Sul. Foram 150 dias, muitas peripécias, perigos, desilusões e vitórias, mas eles chegaram. E disso resultou o livro “Até lá abaixo” que eu acabei  de ler ontem. Na ‘trip’, nem sempre escolheram o caminho mais fácil, nem sempre o mais perto, nem sempre o mais certo e isso também é a aventura. Fronteira após fronteira, passaram por mais de vinte países. Sítios como Dakar, Bissau, Burkina Faso, Costa do Marfim, Togo, Nigéria, Congo, Luanda, Maputo, até chegarem ao destino, Joanesburgo e o depois a cidade do cabo, onde o objectivo era assistir ao campeonato mundial de futebol. E tudo começou em Marrocos.
“Salah prepara-me uma chávena de chá, seguindo um ritual meticuloso. O líquido deve cair do bule para o copo a altura razoável, nunca inferior a uns 20 centímetros. Depois de ser servido a primeira vez, deve abrir-se a chaleira e devolver-lhe o chá que já estava no copo. Serve-se uma segunda vez, e  pela  segunda vez, o chá volta à origem.  Só à terceira, com a certeza de que o açúcar está bem misturado, o chá fica pronto para ser bebido, exalando um perfume irresistível.”
Eu vi esta técnica. E bebi este chá. Ainda me lembro do sabor. Provavelmente dos melhores que já bebi.
Já é do senso comum que África não é para meninos. E eles não foram. Através de algum sentido de humor, Tiago lá vai descrevendo com precisão toda a jornada. Algumas vezes estiveram com fome, outras com frio, outras com sono. Muitas vezes sujos, doentes. Muitas vezes pensaram que era o fim. Conta histórias dos sítios onde passavam. As conversas com os residentes. E depois, conta o choque cultural.
O chefe da Aldeia arranjou-nos um refúgio debaixo de um alpendre de colmo, mesmo em frente à mesquita, onde comemos conservas de atum e lulas, regadas com água tépida. Quase uma centena de crianças acercou-se de nós. Estavam completamente nuas ou apenas com uma tanga esfarrapada e olhavam-nos com curiosidade. Todas, sem excepção, tinham evidentes sinais de subnutrição – eram extremamente magras mas com o ventre inchado. Diante delas estava uma quantidade de alimentos que não comeriam numa semana inteira. Abri uma lata de atum e, quando a oferecia ao miúdo que estava ao meu lado, Abdullaye prendeu-me o braço «se deres a um, tens de dar a todos. Caso contrário vão matar-se por essa lata». Tinha razão. Viajávamos numa cápsula. Podíamos observart, mas não interferir” 
(Episódio no Mali)

Muitos foram os avisos que tiveram antes de partir, algumas dificuldades durante a viagem, mas nada apagou o sonho nem a determinação. Afinal, podemos fazer o que quisermos. O sonho, se existe, é possível.

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