Carta aos amigos

Carta aos amigos

Para mim os amigos são aqueles que  genuinamente se preocupam contigo, mas a quem tu não queres contar tudo para não os preocupar. Sim, é mais ou menos isto. Tu queres que o teu amigo esteja bem e ele quer o mesmo para ti.

Para mim ser amiga é esperar uma hora por uma pessoa e continuar lá até ela chegar. Só para refilar com ela. Os amigos refilam. E discutem. Precisamente porque só refilamos com quem temos mais confiança e com quem sabe que amanhã já passou. Os meus amigos não exigem pedidos de desculpa porque estão fartos de saber que não estou a falar mal para eles, mas sim que estou a falar mal do mundo. Os meus amigos são aqueles que apontam mais depressa os meus defeitos do que as minhas qualidades. Porque se são meus amigos são os que conhecem melhor o meu mau feitio.

Eu não concordo sempre com os meus amigos. Às vezes também não os compreendo. Na amizade não temos de fazer sempre isso. Os amigos a sério são aqueles a quem posso perguntar se aquele vestido me fica bem e eles dizem que não, que me faz gorda. Ou se fui muito bruta à bocado e eles dizem que sim, que sou impossível. A amizade não é fazer tudo o que amigo quer. É saber dizer que não e depois fazer tudo na mesma!

A amizade é tu estares perdido e saberes a que amigo ligar para te salvar. É saberes qual deles te vai buscar. Qual deles te vai trazer água. Qual te vai fazer rir primeiro. Qual te vai deixar falar, sem dizer nada. Qual vai ser mais optimista. Qual te vai dar na cabeça do tipo eu bem te avisei! Se tiveres vários amigos estás salvo. Se só tiveres um que faça isto tudo também.

Há amigos que são de sempre e para sempre. E há amigos que fizeram parte da nossa vida, e foram importantes em determinada fase dela, mas que agora já não fazem. E até podem morar aqui ao lado e até podes falar com eles. Mas já não é a mesma coisa. É normal, não tem mal nenhum. A vida assim o dita. Afastarmo-nos de amigos não quer dizer que nunca gostámos deles.

Depois, pelo contrário, há amigos que não vivem na mesma cidade do que nós. Aqueles que só vemos de mês a mês ou em eventos especiais. Esses amigos são uma lufada de ar na minha vida. Vêm sempre muito frescos. Cheios de ideias. Trazem-me a tranquilidade e o equilíbrio que muitas vezes me falta. Trazem-me conselhos novos. Trazem-me uma alegria diferente da que já tenho todos os dias. Esses amigos olham para as coisas de maneira diferente, porque estão longe e são capazes de mudar, um bocadinho, o mundo quando chegam.

Por fim, há amigos que, por força das circunstâncias da vida, têm a coragem de sair do país para conseguir, um dia, ter uma vida melhor. Esses, os corajosos, deixam cá as famílias e os amigos no conforto de suas casas. E não somos nós, os que cá ficam, corajosos também? Corajosos porque ficamos na mesma vidinha de sempre, acomodados às condições deste país e sem eles, os que partiram? Sim, talvez sejamos corajosos também.

A minha amiga foi para Angola. Há dois anos. Fiz as contas e estamos praticamente idosas. A nossa amizade está de bengala não tarda. Somos amigas há dezanove anos. Ela é, ainda hoje, com toda a distância e anos em cima de nós, aquela que sabe que o meu “olá, está tudo bem por aí?” quer dizer “olá, está tudo mal por aqui!”. Ela sabe. Ela sabe sem olhar para mim. E isso quer dizer tudo.

Em miúdas passávamos o dia juntas na escola. Falávamos ao telefone ao chegar a casa e ainda escrevíamos cartas. Hoje não estamos juntas todos os dias. Não falamos todos os dias. E como ir meter o envelope aos correios já é meio século XV, vamos fazer a coisa mais para o virtual. Vai nascer neste blog a rubrica “Cartas de Angola”, onde ela me conta como vive por lá. Porque ela é a única de nós as duas capaz de emigrar para Angola!

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