Cartas de Angola # 1

Cartas de Angola # 1

Há dois anos a minha amiga emigrou. Decidiu partir a pensar num futuro melhor. Apoiei a decisão porque ela é de aventuras. Porque ia ser bom para a vida que ela quer construir. Mas principalmente porque sabia que um dia ela ia voltar.
Ainda não voltou. Ela está bem, eu sei. Mas não está bem todos os dias. Há dias bastante difíceis. Eu sei. Imagino que seja assim a vida de quem escolheu viver longe. Por isso disse-lhe para me escrever mails e fazer de conta que eram cartas.

No dia que recebi o primeiro texto disse-lhe que ia só jantar e em seguida já me sentava a ler tudinho com atenção. Ela, que me conhece até mesmo à distância destes quilómetros todos, respondeu-me efusiva “vais ser capaz?”. Não fui. Não esperei. Li tudo, antes mesmo de me sentar à mesa. Disse aqui que ia partilhar essas histórias que ela me vai contando. Esta é a primeira:

“Olá gaja,

Isto tem sido uma experiência enriquecedora. Tanto Angola como o facto de ter emigrado. Vai marcar para sempre a minha vida. Já tinha ouvido estas histórias contadas pelos meus avós, mas agora valorizo ainda mais. Sair da zona de conforto, deixar família e amigos…é fazer um sacrifício em prol de um futuro melhor.

Aqui o tempo passa muito devagar. Passaram dois anos, mas para mim… é como se fossem dez. Vejo a família a crescer, os pais a envelhecer. É difícil, mas foi uma decisão bastante consciente e é isso que me conforta. Às vezes a consciência recorda-me de como eram os tempo em Lisboa. Recebia miseravelmente e depois de pagar as contas pouca coisa sobrava para fazer as coisas que realmente gostava, e isso dá-me força para continuar. Aqui conseguimos poupar! Podia ter escolhido outro país, talvez na Europa, mas ia demorar mais anos a fazer essa tal poupança.

Em Angola ainda se recebe bem, mas as condições não são fácies. Aqui passamos a valorizar coisas como água, luz ou televisão. Todos os dias falta alguma coisa. Imagina, combinas um almoço e no dia falta a luz e o gerador deixa de funcionar. Pensas, ok, deve ser falta de combustível. Vais para a bomba, arranjas um funil, enches bidons, no meio dos mosquitos, e toca a despejar lá para dentro. Depois de transpirados, sujos e mordidos o gerador continua sem funcionar. Gritos! E o vizinho da frente diz que o gerador está sem força. Neste momento só me apetece arrancar cabelos. ‘Tás a imaginar? Cancela o almoço! Estou farta disto! Tenho a comida a estragar… Olha, liguei para um dos convidados e transferi o almoço para casa dele! Ele que achava que ia almoçar fora, leva com as pessoas todas em casa dele.

Isto parece um pouco anormal, mas aqui é normal. Todos os dias há um problema de água ou luz e temos de invadir a casa de outra pessoa para tomar banho porque não temos água em casa ou andamos a distribuir comida em casa uns dos outros, para que não se estrague, quando falta a luz. E este espírito é bom. Ajudamo-nos uns aos outros. Há quem tenha o seu parceiro para ajudar, o que é o meu caso, mas há quem esteja sozinho e cá estamos nós para ajudar e dar colinho da mamã.

Mas espera, ainda não acabei a história do gerador. A eletricidade entretanto voltou e tu já nem queres saber porque é que aquilo avariou. Entretanto surgiram as férias, já estás noutra. Vamos a chegar a casa cheios de compras para abastecer o congelador e vemos a rua toda às escuras. Não há eletricidade e nós temos o carro cheio de congelados. Pânico!!! Ligamos ao vizinho a saber o que se passa e ele disse que tinha comprado um carregador de bateria mas precisava de luz para a carregar.  Como nós temos uma loja da empresa à nossa frente sugerimos que ele fosse buscar a bateria para a irmos carregar lá. Passados dez minutos aparece o vizinho a dizer que a bateria tinha sido roubada, daí o gerador não funcionar! Ahahah

Não percas o próximo episódio porque nós também não.

Beijinhos,

Ana”

Aqui o tempo passa muito devagar. Passaram dois anos, mas para mim, é como se fossem dez. Vejo a família a crescer, os pais a envelhecer. É difícil, mas foi uma decisão bastante consciente e é isso que me conforta.

 

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