Começou a chover

Começou a chover

Não me venham com as típicas frases aconchegantes. Que é muito bonito estar no sofá enroladinho na manta e ouvir a chuva ou que adoram adormecer com cinquenta edredons enquanto pinga lá fora.

Começou a chover. E isso só me traz problemas. Ontem entrei no ginásio enquanto estava sol e sai de lá com um dilúvio instalado. Neste cenário, a pessoa (no caso eu) está sem chapéu e sem casaco, com o cabelo meio molhado e vai tentando não ver os olhares de piedade das pessoas que passam. Alguns olhares, posso dizer, estavam mesmo a roçar ali a reprovação por eu andar com aquele ar de verão. Alguns terão pensado que seria bem feita eu apanhar uma gripe valente para não me andar a pavonear naqueles preparos, com esta chuva. E eu, sempre de olhos bem pousados no chão, para não sentir o tom da humilhação, lá ia tentando explicar, mentalmente claro está, que o tempo não estava assim quando eu cheguei.

Também não deve haver coisinha pior do que ir viajar, conhecer uma cidade nova, querer explorar tudo e estar a chover desenfreadamente. Já me aconteceu. Das duas uma, ou vais conhecer muito bem as paredes do quarto do hotel ou compras um chapéu e vais chapinhar pela cidade. Ter um chapéu na mão enquanto se passeia numa cidade é tudo de bom. Ficamos a conhecer muito bem o chão porque com um chapéu a tapar a vista tudo o que se vê mesmo bem é o chão. Viajar com chuva é aquela adrenalina de baixar o chapéu (para ver se não está a chover) e então tirar mil e quinhentas fotos muito rápido, para parecer que está tudo bem.

Devo confessar que sou contra chapéus de chuva. Não posso com eles. Nunca uso. Tenho aí uns dois no carro porque acho que é o sítio ideal. Dá sempre jeito naquela conversa informal “Tá a chover tanto, trouxeste chapéu?”. E eu digo de uma forma sempre muito reconfortante “Sim, está no carro.” De facto, todo o caminho a percorrer até ao carro, em que me vou molhar, não interessa nada porque o chapéu está no carro. É um conforto.

Eu não gosto de chapéus. Não me julguem. A última vez que usei um (em 1999) aconteceu uma tragédia. Abrir o chapéu é um cabo dos trabalhos mas lá consegui. Caminhei uns minutos com ele a tentar levantar voo mas controlei a situação. Quando cheguei ao carro, abri a porta e sentei-me deixando o chapéu do lado de fora enquanto o tentava fechar. Mas o chapéu não fechava por nada deste mundo. O carro, com a porta aberta, a ficar todo molhado por dentro, eu a agitar freneticamente o chapéu e ele sem fechar. Eu a ficar encharcada. Decido fechar a porta e trazer o chapéu para dentro. Fecho-o sobre as minhas pernas e nisto corto-me no dedo e começo a deitar sangue. É isso, odeio chapéus. Porque se reviram com o vento. Porque ficam molhados e não dá para guardar em lado nenhum. E principalmente porque não fecham.

 

 

 

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