A minha irmã

A minha irmã

Hoje é dia do irmãos. E ter irmãos é a melhor coisa do mundo. Não há mais ninguém que te vá buscar a toalha dos pés quando vês que não a tens já depois de entrar no banho.

Quando eu era pequena pedi muito uma irmã aos meus pais. Especificamente uma irmã. Eles acederam. Portanto, desde os primeiros dias da sua existência que lhe digo que só cá está devido a mim e em dias em que estou mais chateada digo coisas piores. Todos os irmãos mais velhos ouvem coisas dos pais como “Não vês que ela é pequena, ainda não sabe”. #Teamirmãosmaisvelhos acusem-se agora, ajudem-me, sff, obrigada!

Sim, eu tive ciúmes quando ela nasceu, mas não é sobre a dura luta dos irmãos mais velhos que venho falar hoje. Venho falar mais da vida entre irmãos, no geral. Mais concretamente entre irmãs que é a vida que eu conheço. Ter uma irmã é a verdadeira prova de que tens uma pessoa que estará lá para ti aconteça o que acontecer. Não importa se não se dão bem ou se têm cicatrizes de lutas de infância. Não importa se se falam todos os dias ou não, se moram na mesma casa ou não. Ter uma irmã é ter a certeza absoluta que na altura certa ela vai falar. No fundo é ter a certeza que ela vai falar mesmo se não lhe perguntares nada. E nessa altura, mesmo que não lhe tenhas pedido opinião, vais querer saber o que ela tem para dizer. É estranho, é absurdo, vais refilar porque ela se está a meter na tua vida, mas vais sentar-te a ouvir e no final vais dizer “Eu já sabia que não ias compreender”. Faz parte.

Há histórias que só se vivem com os irmãos. Como daquela vez em que a mãe se descaiu sobre a prenda do natal. A minha irmã é a única pessoa com quem pude fazer chantagem sem culpa. Tipo, “se me deixares ficar no quarto com os meus amigos sem me incomodares eu dou-te os meus lápis de cor”. Nunca resultou, ela nunca me deixou em paz, mas pelo menos nunca tive que lhe dar os meus lápis.

Ter uma irmã e dividir o quarto com ela é ter bonecos espalhados, livros riscados e objectos estragados. Ter uma irmã é depois de ter quartos separados passar a vida no quarto dela. É fazer lanches disparatados que só vocês gostam. É cantar alto fechada no quarto enquanto a outra grita para que se cale porque canta realmente mal. Ter uma irmã significa que nunca te vai faltar o papel higiênico ou a toalha dos pés depois do banho. Ela serve para ir buscar, embora depois te desligue o esquentador por vingança. Ter uma irmã é saber as falas dos filmes da Disney de cor e conseguir fazer interpretações brilhantes de teatro com isso.

Ter uma irmã é poder dizer tudo sem medos (e ouvir também). Quando lhe perguntas “o que é que achas?” tens de estar preparada para tudo. É ter a certeza que nunca vais feia a uma festa. A tua irmã vai dizer a verdade mesmo se for preciso ferir os teus sentimentos. Ter uma irmã é ter sempre uma Zara por perto porque no armário do quarto ao lado podemos sempre encontrar roupas novas. Mas isso não significa que não nos zanguemos quando a outra usa sem pedir porque justamente naquele dia queríamos vestir aquilo que ela levou.

A minha irmã é a única pessoas do mundo com quem discuto violentamente sem que precise pedir desculpa. “Tens aí a minha caneta?”, “Ai, agora já falas comigo?”, “Estávamos chateadas? Não me lembro, dá-me masé a caneta.” Ter uma irmã é passar alguns dias sem falar mas em conversa casual dizer que vamos ao médico e ouvir “Vou contigo.” Ter uma irmã é dizer “vens ter comigo?” e ouvir do outro lado “Sim, mas vem me buscar”.

Ter irmãos é mais do que ter sangue em comum. É ter uma vida em comum. É ter alguém de quem nunca te vais desligar. É ter a certeza que se o teu mundo acabar amanhã, são eles que vão estar lá. É partilhar. É ter alguém em quem depositar esperanças. Em quem acreditar. É querer ser como eles. É ser duro com eles. É mostrar a realidade. É querer vê-lo vencer tanto como se fosses tu. Ter irmãos é ter a certeza que as coisas fazem sentido assim. Ter irmãos é ser pequeno até ser grande. É brincar e rir a vida toda.

Ter uma irmã é poder escrever este texto sabendo que ela vai ler, vai deixar cair aquela veia lamechas e vai perceber que cada frase irônica é a minha maneira de dizer que gosto dela. Depois vai-se recompor e vai-me ligar a dizer com um ar muito sério: “És mesmo estúpida, Andreia.”

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