Chapters & scenes | Girl bosses

Chapters & scenes | Girl bosses

Hoje chega mais um projecto novo aqui ao blog. Juntei-me a alguns bloggers para escrever sobre livros e filmes com um tema em comum, uma vez por mês.  Este é o novo projecto “Chapters & Scenes.” 

A ideia veio da cabeça da incrível Mariana do blog It’s ok que conheci no Bloggers Camp em Junho. Ela propôs que todos os meses escolhêssemos um tema e depois dissertássemos sobre ele com base na sexta ou na sétima arte. Ou seja, teremos o mesmo tema mas cada um escolherá um livro ou filme diferente. Todos nós vamos disponibilizar os nossos textos durante a semana que contém o dia 6 e 7. Podem saber mais coisas clicando no logotipo aqui do lado direito na página.

O tema do mês de Outubro é Girl Bosses. Escolhi uma história que li quando era criança e nunca mais me esqueci. Ficou-me na memória e poderia ser o meu livro preferido se eu tivesse um. Na altura havia mesmo uma série de desenhados animados com esta história que eu gravava religiosamente todos os dias numa vhs. É a história de uma família de mulheres, que se passa durante a guerra americana, entre 1861 e 1865. Nesta altura nada se sabia sobre direitos das mulheres ou girl bosses. O papel da mulher na sociedade era completamente desvirtuado. Escolhi o livro “Mulherzinhas” de Louisa May Alcott.


Este livro, que tem também um filme, de 1994, fala sobre a história das irmãs Meg, Jo, Beth e Amy que vivem com a mãe e a criada Hannah, porque o pai se alistou para o Exército. Não têm direito a luxos, na verdade a sua situação económica é desfavorecida e têm de usar os mesmos vestidos, gastos e com remendos. Nestes dias difíceis encontram a sua força na união familiar, na amizade entre elas e na bondade para com os outros. Esta família remenda não só vestidos, remenda também dificuldades dando a volta a todas as situações. E eu encontrei aqui o verdadeiro girl power.

Todos nós temos dias absolutamente maus, em que vemos os problemas sobreporem-se e esquecemos as coisas realmente importantes, porque não é fácil enxergar a realidade. Porque é mais fácil deixarmo-nos andar nas linhas da amargura. Eu também sinto isso às vezes. Todos nós somos egoístas. Todos nós pensamos nas coisas erradas e não avaliamos bem as prioridades. Estas irmãs também tinham os seus dias complicados, mas juntas sempre conseguiam perceber quais os sentimentos que deviam prevalecer nos seus corações.

” – Este Natal sem presentes nem vai parecer Natal – resmungou Jo, estendida ao comprido sobre o tapete. – é tão horrível ser pobre! – suspirou Meg, olhando para o seu vestido já gasto. – Não acho justo umas raparigas terem muitas coisas bonitas e outras não terem nada – acrescentou a pequena Amy, com uma expressão magoada. – De qualquer maneira, temos o pai e a mãe e temo-nos umas às outras – contrapôs Beth, com satisfação. do canto onde se encontrava sentada.”

Desde sempre que as mulheres demonstram verdadeira força de vontade em agir em todas as frentes. As mulheres não temem o trabalho dentro de casa por terem outro trabalho fora de casa. As mulheres têm força porque são focadas no que fazem. Porque aceitam o desafio, que têm na sociedade, de ser mais e melhor. Esta família mostra que perante dificuldades económicas e saudades do pai, a única presença masculina nas suas vida, só o espírito empreendedor e lutador as pode ajudar a minimizar a dor.

Meg é a mais velha, é muito vaidosa e está sempre a dar conselhos às irmãs para que sejam meninas bem comportadas. Sonha ser a típica mulher da altura, que cuida da casa e tem filhos. Jo é uma maria rapaz. A total antítese das mulheres desta época. Gosta de aventuras e de subir às árvores e de tudo o que é improprio para uma rapariga de 15 anos. É através desta personagem que a autora, a meu ver, quer demonstrar que as imposições da sociedade, para com as mulheres, precisam de sofrer várias mudanças. Jo tem uma mentalidade aberta, quer ser escritora e está contra tudo o que são regras. É com ela que podemos ver a mulher da nova sociedade. Uma girl boss. Sem medo. Com garra e atitude. Com capacidade de liderança. Espírito activo, criativo e crítico. Mas com coração generoso e compreensivo. Um olhar diferente do mundo assente em valores que revelam um carácter justo, honesto, trabalhador e positivo.

“Não aceito conselhos! Não sou capaz de estar quieta o dia todo e, como não sou nenhum gato, não aprecio ficar a dormir frente ao lume. Gosto de aventuras e vou à procura delas.”

Meg e Jo ajudam nas despesas da casa revelando um espírito empreendedor raro na altura. Meg é tutora de crianças e Jo faz companhia à tia já idosa. Beth é uma rapariga tímida e por isso não se sente à vontade em falar com muitas pessoas, estuda em casa, cuida das bonecas e adora animais. O seu verdadeiro amor é a música e o piano que toca magnificamente. Amy é a mais nova da família, é traquina e revela grande paixão pelas artes, nomeadamente pelo desenho e o seu sonho de criança é crescer bonita.

MULHERZINHASANIMADOS

Através das relações que têm umas com as outras, com a mãe e os vizinhos elas conseguem surpreender e ser fiéis aos seus sonhos, não desistindo nunca de os alcançar, apesar das pressões, tristezas ou dificuldades. Têm esperança em dias melhores e agem com boa disposição perante todos os problemas, é assim que os conseguem resolver. Elas vestiam os mesmos vestidos amassados mas divertiam-se e brincavam muito umas com as outras, pois sabiam que o que tinham de mais valioso era a família. Elas davam o pão do seu pequeno almoço aos mais desfavorecidos de bom grado, porque sabiam que no final do dia teriam uma lareira com fogo para lhes aquecer os corações. Podiam não ter dinheiro para estudos mas estudavam em casa não perdendo a força de vontade. O chamado hoje empowerment feminino não é isto? Não terá nascido aqui? Não terá os seus pilares cravados numa história como esta?

Às vezes, acho que as pessoas que têm mais dificuldades são aquelas que compreendem melhor as outras. Que querem mais ajudar. Como têm menos, é mais fácil dar mais. E como é mais difícil alcançar um objectivo, lutam mais, trabalham mais. Talvez seja isso.

 “Não a invejo, apesar de todo o seu dinheiro, pois as pessoas ricas devem ter tantas preocupações como as pobres.”

Na última página do livro, a autora chama a esta história um drama doméstico. E é bem capaz de ser. O livro conta a história das irmãs e da mãe através de vários episódios vividos sempre com a grande intensidade da infância e da adolescência. Coisas que lhes vão acontecendo para dar vida aos dias. Um convite para Meg ir a um baile na cidade, um dia de Amy na escola, a relação de amizade de Jo com o vizinho ou um dia na vida de Beth que ainda gosta de brincar com bonecas. É através de simples passagens como estas, em pleno contexto familiar, que Louisa May Alcott consegue passar a brilhante mensagem do papel das mulheres na sociedade, da vida que levavam e da que sonhavam levar, que é bem diferente. Pensamento muito à frente Louisa, weel done!

Este livro, que estou a reler, passados tantos anos, pode ser interpretado como um pedido de emancipação feminina. Uma nova forma de ver as mulheres. Não podemos esquecer a altura em que foi escrito e do tipo de sociedade que retrata. Uma família de mulheres sozinha numa casa e a ter que governar a sua vida pode ser muito banal e sem interesse hoje, e ainda bem, mas naquela época, em plena guerra americana, por certo não era normal.

Através das personalidades das protagonistas conseguimos ver este pedido escondido, da autora, para que acreditemos mais nos poderes das mulheres. Uma mensagem que eu consigo ver agora e que provavelmente não percebi quando o li em criança. Só sei que era fascinada por esta história. Tanto que, todos estes anos mais tarde, descobri que existe uma sequela, chamada “Boas Esposas” e que pretendo ler agora de seguida. Será que as ideologias e os sonhos de vida das irmãs March passaram para o plano da realidade?

E vocês, também tiveram este livro como companheiro de infância? Ficaram com curiosidade de voltar a ler com os olhos de uma criança como eu o fiz na altura? Ou preferem ver se encontram aqui estes sinais de mulheres que conjugam as suas fragilidades com os seus poderes de guerreiras e lê-lo agora, já adultos?

Podem ver que livros e filmes para o tema Girl Bosses escolherem os outros bloggers que participam neste desafio:

Deixa Ser  |  Nuts For Paper  |  Infinito Mais Um  |  Limited Edition | It’s ok
Daily Echo  |  Meek Sheep  |  Às Cavalitas do Vento  |  Uma Chávena de Charme  |   Joan of July

3 Comentários

  • Green
    7 Outubro, 2017 18:34

    Que engraçado, ao ler o que escreveste a ver a imagem dos desenhos, lembro-me de ver isso na televisão mas confesso que nunca lhe dei a importância que realmente tem. Fiquei com curiosidade de ler e de ver :)

    • Andreia Moita
      7 Outubro, 2017 18:58

      Na altura que li também não dei importância, mas curiosamente não me esqueci desta história!

  • Mariana Monteiro
    8 Outubro, 2017 15:07

    Gostei muito de ler a tua opinião!
    Já andava curiosa com o livro, mas depois de te ler tenho a certeza que vai saltar para a minha estante em breve :)

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