Às de espadas

Dois alunos da escola Niveus estão constantemente a ser alvos de ataques anônimos. Alguém quer prejudicá-los. Quem é este  que se apresenta como Ases e porquê estes alunos em específico? Eles não tem absolutamente nada a ver um com o outro. Apenas a cor da pele.  “Às de Espadas” foi uma autêntica surpresa para mim.

Olhem vou dizer-vos, sinceramente. Julguei que partia para um livro ao género de séries de adolescentes como “Elite”, “Control Z” ou “Gossip Girl” e do livro “Um de nós mente”. Mas, apesar das parecenças iniciais, “Ás de Espadas” é muito mais complexo e profundo. Comecei a ler este livro da forma errada. Estava a olhá-lo como mais um thriller jovem comum e procurei um culpado, armada em esperta, durante muitos capítulos. Tentei adivinhar quem era o autor das mensagens enigmáticas que ameaçam expor a vida dos dois jovens. Pronto, pensei que era só isso. Só que esta história tem muito mais camadas. Não é uma história igual às outras. Fui ingénua. Uma verdadeira menina!

“Ás de Espadas” percorreu caminhos inesperados. Eu não estava à espera que o desfecho fosse aquele. Quer dizer, quem estaria? Esta é uma história sobre classes sociais, racismo, orientação sexual e… humanidade. É uma história séria e grave. Chega a ser mesmo cruel e muito dura. Tem muitos assuntos dentro de um só. Tem ali passagens em que ficamos suspensos a pensar “como assim?”, “o quê?” ou “mas porquê?”.

As personagens: Chiamaka e Devon

Tanto o Devon como a Chiamaka são personalidades com enorme potencial e apesar de serem de mundos diferentes e terem personalidades distintas, têm um objetivo em comum – ir para a universidade. E agora também têm um problema conjunto também: Estão a ser perseguidos por alguém. Gostei muito da construção de personagens. Criei alguma empatia com as elas. Têm características reais.

A personagem que é a “vítima” não precisa de ser sempre boazinha ou ter um “currículo” imaculado. A Chiamaka não é uma querida. Pelo contrário. Até a achei bastante arrogante. Mas, como toda a gente tem uma história, achei que isto trouxe um realismo brilhante a esta personagem. Adorei o Devon, mas é mais expectável que todos gostemos, pelos seus valores e pela sua história de vida. Gosto, sobretudo da forma como ele cresce na história até ao plot twist que lhe diz especialmente respeito ele. (Porque há vários nesta história! E dos bons!)

A narrativa

Achei que a narrativa se foi adensando ao longo do livro. Vai ficando mais complexa, mas profunda (e mais sórdida). Se ao principio parece lento, é propositado, creio eu. É uma forma de nos ir conduzindo devagar até nos agarrar no ponto certo. Ou então sou eu que tenho um problema e gosto de saber tudo imediatamente! Também pode ser isso! A dada altura, surpreendeu-me e meteu-me alerta. E isto faz um livro ser bom. Além disso, tem uma linguagem muito acessível e jovem o que facilita o entendimento e potencia a vontade de continuar.

Achei, no entanto, que há coisas que podiam ser mais exploradas ou melhor… explicadas. Para as personagens, os assuntos ficaram arrumados, isso fica claro! Mas para mim, Andreia Moita, não é suficiente. Há personagens que a dada altura desaparecem e das quais eu gostaria de ter ouvido mais algumas explicações. Porque as tinham a dar! (Imaginem um emoji bem zangado!)

As mensagens explícitas e implícitas  de “Às de Espadas”

“Ás de Espadas” tem tantas, mas tantas mensagens dentro Uma das ideias mais importantes está em lutar contra o poder sempre que ele seja injusto. Seja que poder for e seja que injustiça for. Não desacreditar quando eles parecem mais fortes. Parabéns à autora!

Os livros são uma arma de intervenção importantíssima. E este pode ajudar a levar a debate muitos assuntos culturais, raciais e sociais. E não deve ser sido só por jovens. Acredito que todos somos o publico certo para este livro.

Queria deixar-vos algumas citações, mas receio que as que escolhi possam revelar coisas que eu não gostaria de ter lido. Deixo-vos, antes, uma música que associo a este livro:

I walk this empty street
On the boulevard of broken dreams
When the city sleeps
And I’m the only one and I walk a

My shadow’s only one that walks beside me
My shallow heart’s the only thing that’s beating
Sometimes I wish someone out there will find me
‘Till then I walk alone

 

Boulevard of broken dreams (Green day)