livros de Brittainy C.Cherry

Os livros de Brittainy C.Cherry têm um ingrediente em comum. Pessoas que sofrem. Que se isolam. Que precisam ser resgatadas por e delas mesmas. Seja por luto ou abandono, as personagens sofrem. E os livros são tristemente belos.

Quão trágico é eu dizer que a tristeza é bela? Que espécie de psicopata sou eu? Que bruxaria é esta capaz de transformar algum sentimento ou emoção negativa em algo que se gosta de ler? Acho sempre muito macabro dizer que se gosta de um livro triste. E acredito que mais do que a história que nos é apresentada, o seu poder está também na forma como ela está escrita.

A essência dos livros da Brittainy C.Cherry

Os livros de Brittainy C.Cherry são intensos nas descrições de emoções. E depois têm aquilo que eu acho essencial, têm uma mensagem. De alguma forma aquilo que nos transmitem é o conforto de saber que a dor atenua. Que a seguir a ela vem a transformação e renovação. “Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe”. Que bonito meter aqui um ditado popular português. Mas é mais ou menos isto que os livros dela me fazem pensar.

Eu acho que os livros da Brittainy C.Cherry não desvalorizam a dor nem as lutas interiores das personagens. Pelo contrário, dá-lhes tempo. E a nós também para que as possamos sentir. E acho isso magistral. Mesmo que a história às vezes não seja a mais surpreendente, empolgante ou inesperada, a mensagem funciona.

As comparações, as expetativas e os julgamentos quando lemos mais do que um livro do mesmo autor

O problema de ler dois ou mais livros do mesmo autor é que fazemos comparações entre eles. Independentemente de escolhermos ler porque sabemos que vamos sempre gostar do que quer que ele escreva, inevitavelmente pomos as obras em cima da balança do nosso julgamento e depois quando vamos fazer uma avaliação as coisas podem não ser justas. Isso aconteceu-me. Li o “Silêncio das Águas” e fiquei arrebatada. E pensei, eu quero ler tudo desta mulher.

Quando li “O ar que ele respira” gostei mas já não foi a mesma coisa. Então, espera, “O ar que ele respira” é bom mas por comparação deixa de ser? Pois, a resposta é não. Claro que não deixa ser bom. A expetativa que um autor tem que se superar livro após livro é tremendamente injusta. Mas ainda assim por causa do “Silêncio das Águas” não lhe dei cinco estrelas mas sim quatro. O que teria eu feito à minha vida se tivesse lido na ordem inversa? Compreendem o que quero dizer? Ainda assim, ela pode continuar a escrever que eu vou ler garantidamente porque não se dá o caso de ter gostado muito de um e nada do outro. Não. Eu gostei de ambos, apenas elevei a fasquia da minha expetativa para o segundo.

O ar que ele respira

É de ficar com o coração apertado durante o livro inteiro. Duas personagens num luto doloroso conhecem-se e acabam por se apaixonar. Ao mesmo tempo que lidam os próprios fantasmas preocupam-se com os fantasmas um do outro. E cuidam-se juntos, construindo uma relação com base nesse cuidado mútuo. Eles mostram que apesar de não estarem preparados para o amor, no inicio da relação, também não deixaram de acreditar nele e usam-no para se salvarem a eles mesmos e um ao outro.

Já vi muitas críticas ao início desta relação e naquilo que se baseia. Penso que é isso que divide as opiniões e que faz este livro ser mais controverso. A mim não foi isso que me fez confusão porque entendi o sentido que a autora lhe quis dar. Para mim o “problema” reside no facto de existirem dois plot twists e ambos são previsíveis. Um deles eu compreendi logo no início e por isso não dou mais pontuação. Uma história destas merecia que a coisa estivesse mais disfarçada para ter mais impacto no final.

O silêncio das águas

Se eu chorasse com livros com certeza este tinha sito um deles. Fala sobre a forma como lidamos com os nossos medos e traumas e depois sobre o amor e todas as suas formas. O de mãe e pai. De irmãos. De amigos. De namorado e marido e mulher. Até de vizinhos.

Tem das frases mais bonitas que já li sobre o silêncio. Este livro é sobre encontrar a nossa voz quando ninguém nos ouve. E é um lembrete de uma coisa que fazemos com frequência. Somos muito bons a levantar os outros, mas quando precisamos de ajuda parece que não aceitamos e queremos permanecer numa tristeza só nossa.

Para além de tudo isto este livro tem música e tem outros livros dentro. Os protagonistas trocam anotações e opiniões dos livros que leem. Durante muito tempo é assim que eles falam. E isto é lindo para quem gosta de ler.

Já leram os livros da Brittainy C.Cherry?