Manual de sobrevivência de um escritor

Adorei ler o “Manual de sobrevivência de um escritor” do João Tordo. Desde as técnicas à rotina de um escritor, este livro não é uma história comum. É um livro sobre escrever.

Considero que este seja um livro técnico daqueles que se “podem” sublinhar, sabem? Apesar de abordar temas específicos sobre a estrutura da narrativa, os diálogos, a revisão, o livro está escrito segundo a voz e o tom tão característico deste autor que tanto gosto.

A par dos conselhos, João Tordo conta-nos em “Manual de sobrevivência de um escritor”, detalhes, pormenores e curiosidades que ele próprio usa nas suas rotinas e métodos de escrita. Enquanto isso ainda nos conta momentos de criatividade durante a redação dos seus livros. É muito giro saber como foram criadas histórias que já lemos. Quanto às que não lemos aguça-nos a vontade. Portanto, está tudo certo!

Eu já adoro os livros, as histórias, a linguagem de João Tordo mas agora fiquei a gostar também de saber como escreve. Como lhe surgem as ideias, o que pensa do acto de escrever e do mercado livreiro.

Será que para escrever sobre tristeza é preciso ser/estar triste?

No entanto, houve uma questão neste “Manual de sobrevivência de um escritor” que ficou a baloiçar na minha cabeça: João Tordo acredita que escrever é um acto melancólico. Que se escreve mais e melhor quando se está perante um estado de espírito evasivo, triste, carente, zangado, frutado. As emoções negativas decorrentes de traumas ou de situações mais avassaladoras ou depressivas ajudam o papel a ficar preenchido. Contou alguns episódios da sua própria vida que motivaram determinado livro que escreveu. Ele acredita que a experiência pessoal tem influência na sua profissão.

Reconhecemos todos isso na escrita e nas histórias dele. E funciona. Foi aliás com ele que aprendi que gosto de livros tristes. Lembrei-me de já ter ouvido de vários artistas, na área da música, por exemplo, a mesma expressão. Muitas canções são escritas depois de uma desilusão de amor.

Tentei recordar as várias vezes em que escrevo. Prefiro escrever humor. Porque eu penso de forma sarcástica a maior parte das vezes. Considero que os meus melhores textos são irónicos. A minha criatividade é positiva. Mas nem sempre o meu cérebro é. Confesso que muitas vezes imagino os piores cenários e sou pessimista. Também escrevo nessas fases. Normalmente os temas mais sérios escrevo quando estou mais pensativa, inquieta ou ansiosa. Escrevo para desabafar também. Para aliviar e esvaziar a cabeça.

Eu não concordo que temos que ter uma “má” vida para escrever algo que cause impacto. Não, não concordo que tenhamos que sofrer traumas para conseguir expressar e despertar emoções. Creio que a “sofrência” traz bagagem, sim e infelizmente. Mas também acho que pessoas com histórias de vida felizes podem sim escrever grandes histórias e sobre várias emoções. Naturalmente saberá mais sobre o que já sentiu. Mas em última instância escrever uma história é criar, imaginar, inventar, e é sim, na minha opinião, possível escrever sobre o que ainda não se viveu.

Já leram este livro? Ficaram curiosos? O que acham desta questão que coloquei?