Uma arte subtil

Uma arte subtil

Eu não digo asneiras frequentemente, mas quando descobri o livro “A arte subtil de dizer que se f*da” quis muito ler. Porque o facto de não dizer asneiras com regularidade me confere o poder de perceber realmente o potencial que isso tem e o acto libertador que isso é. Dizer uma asneira no momento certo é mais ou menos como mandar os papéis todos da secretária para o chão de uma só assentada. E só nunca fiz isso porque teria de os apanhar depois.

Nem preciso de estar particularmente enfurecida para escrever isto. Porque há, de facto, uma certa arte subtil em admitir que há coisas que são uma m*rda e portanto mais vale dizer se f*da. Podemos optar por um simples “estou-me a cag*r” ou uma coisa mais ‘old school’ como “estou-me nas tintas”. Vai tudo dar ao mesmo que é como quem diz “que lixe”.

O cerne da questão aqui é…preocupamo-nos demais. Preocupamo-nos com o almoço de amanhã porque não tiramos para descongelar. Preocupamo-nos com a roupa porque nem sabemos se chove ou faz calor. Preocupamo-nos com a máquina que avariou, com o carro que tem que ir à revisão, com a consulta marcada para a próxima sexta, com o trabalho que não está a correr bem, com a saúde da tia Alzira.

Pensem bem: estamos sempre preocupados com uma porcaria qualquer. Seja de pequena ou grande importância há sempre alguma coisa na nossa cabeça que nos preocupa. Não estamos um bocadinho sossegados. Até mesmo as férias são uma dor de cabeça antes de serem férias. Para onde é que vamos? Tão longe? Tão perto? Tantos dias? Tão poucos? Tão caro, não dá. Tão barato, deve ser treta. É isto, não é?

E depois, o que acontece? Depois morremos. É isto que diz o último capítulo do livro “A arte subtil de dizer que se f*da”.

A morte é a luz pela qual se mede a sombra de todo o sentido da vida. Sem a morte, tudo pareceria inconsequente, toda a experiência seria arbitrária, todos os critérios e valores seriam de repente, zero”

A arte de ignorar o que não interessa , mas antes disso…é preciso saber/perceber exatamente o que não interessa.

Eu penso que a grande mensagem aqui é a forma como nos preocupamos com as coisas. Temos necessariamente de começar a selecionar melhor as coisas com as quais nos importamos e mandar as outras para um sítio que nós todos sabemos usando a sábia arte de dizer asneiras.

Ri-me muito ao ler este livro. As coisas são ditas e explicadas com uma espécie de arte subtil mesmo. Não se descobre aqui o petróleo. Não há aqui fórmulas nem respostas mágicas. Isso era até mesmo batota. O que este livro nos dá é exatamente a mesma problemática que os outros, mas com propostas de pensamento diferente. Para nos fazer trabalhar precisamente com as nossas crenças, com o nosso carácter, com a nossa astúcia para viver. Preocupações todos temos. Problemas também. Mas ninguém os resolve da mesma maneira. Ninguém diz que f*da da mesma maneira. É por isso que não sei se fiz a leitura correta deste livro. Mas é a minha.

A tomada de decisões com base na intuição emocional, sem o auxilio da razão para as manter na linha, é quase sempre um disparate. Sabe quem baseia toda a sua vida nas emoções? Os miúdos de três anos. E os cães. Sabe que outra coisa fazem os miúdos de três anos e os cães? Cagam na alcatifa.

Ninguém é extraordinário

O autor, Marc Manson, diz que nós, quando pensamos nas coisas positivas e felizes da vida, estamos constantemente a pensar em coisas que nos faltam. E isso é um problema e já por si uma preocupação. Porque achamos que só seremos espetaculares quando tivermos um emprego melhor, uma casa melhor, uma vida melhor.

O conceito de melhor será diferente para cada um, mas a questão prende-se essencialmente com o chamado “ter”. Manson quer lá saber diss. Ele diz que ninguém é realmente especial ou extraordinário por nada. Se assim fosse esse conceito deixava de existir. Acho isto um bocadinho cruel. Porque batalhamos sempre para ser um bocadinho mais e ninguém quer ser medíocre. Mas, no final, acabo por compreender a sua ideia na medida em que se todos forem extraordinários são todos iguais e óptimos, deixando de haver essa definição.

Marc (tu cá tu lá com ele!) diz que aquilo que nos define não é a forma como encaramos as nossas experiências positivas mas sim as negativas e portanto irremediavelmente precisaremos delas a acontecer na nossa vida, nem que seja para formar carácter. Marc diz que o fracasso é o caminho para frente. Mas isso também já calculávamos, não era? Não nada depois do fracasso que não possa correr melhor.

Estamos errados acerca de tudo e isto é só uma arte subtil de dizer coisas

Somos “arquitectos das nossas próprias crenças”, diz o autor. Não tenhamos dúvidas que a nossa mente é a nossa arma mais poderosa. Este é o meu capítulo preferido. Imaginem a seguinte situação (spoiler alert!) várias pessoas são fechadas numa sala com uns botões em frente. As pessoas começam a carregar nos botões de forma instintiva para ver o que acontece. E,  de vez em quando, na sala, aparecem umas luzes. As pessoas acham que foi por terem em carregado nos botões de certa forma ou como uma certa sequência. Quando saem da sala é-lhes dito que as luzes apareciam de forma aleatória e nada tinha a ver como que elas faziam.

O nosso cérebro faz-nos acreditar no que quisermos, compreendem? Dá-nos aquilo que queremos na altura. Eu tenho vindo a acreditar nisto. E atenção, isto é válido para pensamentos bons e pensamentos maus.

Se eu acreditar que sou um cozinheiro fantástico, procurarei oportunidades de o provar a mim mesmo repetidamente. Até mudarmos a maneira como nós vemos a nós mesmos, aquilo que acreditamos ser ou não ser, conseguimos ultrapassar a negação e ansiedade. Não conseguimos mudar. Desta forma conhecer-se a si próprio ou encontrar-se pode ser perigoso. (…) Pode fechar-nos ao potencial interno e às oportunidades externas. Eu digo não se encontre. Nunca saiba quem é. Porque é isso que o impele a lutar e descobrir.

Acredito que o que diz aqui não é para andarmos por aí perdidos à deriva na vida. É só para não vivermos na ignorância em relação a todas as oportunidades que temos. E é por isto que gostei deste livro. Porque ele foi capaz de nos abrir a mente para várias possibilidades. Este livro é capaz de nos dar várias ideias evitando que fiquemos presos aos estereótipos de pensamentos positivos e auto ajudas da vida que sempre metem a vida cor-de-rosa quando ela pode ter muito mais cores.  Dizer coisas desta forma é de facto uma arte subtil

A felicidade é a resolução de problemas

A felicidade é tão difícil de definir, a meu ver, porque é diferente para cada um de nós. Para uns é aproveitar as coisas pequenas da vida como acordar cedo de manhã, para outros é estar num cruzeiro em alto mar. Todas serão maravilhosas e válidas. A essência a felicidade é estarmos bem connosco próprios e sentirmos orgulho das nossas ações e contentamento com os nossos pensamentos. A felicidade tem a ver com a forma como medimos o nosso sucesso, de que maneira pautamos a nossa conduta. E tem a ver com aquilo que nos faz sorrir, que nos apaixona, que nos deixa tranquilos, que nos faz ser livres. A felicidade terá a ver com a forma como encaramos a vida. E também isso é uma arte subtil.

Para sermos felizes precisamos de ter alguma coisa para resolver. Assim a felicidade é uma forma de ação; é uma atividade, não é algo que nos sejam passivamente atribuído, não é algo que descubramos magicamente num artigo top-ten do Huffington Post ou junto de qualquer guru ou professor. Não surge  magicamente quando finalmente ganhamos dinheiro suficiente para acrescentar uma divisão à casa. Não a encontramos à espera num sítio, numa ideia, num emprego – nem mesmo num livro, já agora.

5 Comentários

  • Green
    10 Julho, 2018 15:28

    Esse livro deve ser realmente muito interessante de se ler, deve ter uma mensagem franca sobre a visão do autor sobre a vida e sobre o que realmente importa. Parece-me bem.

  • Filipa
    10 Julho, 2018 22:10

    Comprei esse livro para oferecer à minha mãe. E mal posso esperar por começar a lê-lo.

    • Andreia Moita
      26 Julho, 2018 10:19

      Filipa, aconselho.
      Depois diz se gostaste e com que opinião ficaste.
      Bj

  • Cacao
    17 Julho, 2018 8:15

    Tenho esse livro lá em casa para ler 😉

    • Andreia Moita
      26 Julho, 2018 10:17

      Go, go.
      Aconselho a leitura. Depois se quiseres diz-me o que achaste.
      Bjs

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